COMO ASSIM LEVANTADOS DO CHÃO

Uma criação de Carlos Marques e Susana Cecílio

Vistos de longe os trabalhadores rurais parecem formigas, a caminho de ocuparem as terras, tal como o José Saramago os deixou, Levantados do Chão. Mas, se nos aproximamos, não são formigas, não, como assim?

Criação e Interpretação Carlos Marques e Susana Cecílio | Texto Miguel Castro Caldas | Composição Musical Teresa Gentil | Dispositivo Cénico e Iluminação Nuno Borda de Água | Design de Comunicação Susana Malhão | Fotografia e Vídeo promocional MaxR |Gestão de Projecto e Produção Carla Pomares

COMO ASSIM LEVANTADOS DO CHÃO é um espectáculo de teatro que parte do fim do romance Levantado do Chão de José Saramago, no qual os trabalhadores rurais do Alentejo se levantam do chão, à data de um 25 de Abril. E nós perguntamos, como assim, levantados do chão, pois passados estes anos ficámos sem entender a metáfora, e é também do romance Levantado do Chão que é dito, à laia de mito, que se terá consolidado o saramaguiano estilo de narrar. É pois, a partir do encontro com essa voz de narrador que nos faz arriscar a viagem sobre o inenarrável, a nossa vida, portanto, o destino daqueles trabalhadores rurais que ocuparam as terras e perderam a aposta, a terra que doravante ficou inculta, o “falhámos a vida, menino” do João da Ega (de “Os Maias”), enfim, sobre o que ainda precisamos de escrever sem sabermos narrar. Se Saramago traça geografias de desigualdades e injustiças incrustadas no tracejado latifundiário do Alentejo através da divisão social entre duas classes fundamentais do capitalismo – patrões e trabalhadores –, COMO ASSIM LEVANTADOS DO CHÃO fala metaforicamente de “outras esquinas” do capitalismo. Passaram-se 34 anos da edição da obra e 40 sobre o 25 de Abril. A festa de Abril está esbatida e continuamos numa procissão para lado incerto. Nessa procissão ainda estão os Mau-Tempo e outros de quem não sabemos os nomes, mas conhecemos as vidas.   


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SOBRE O TEXTO | MIGUEL CASTRO CALDAS  O romance Levantado do Chão de José Saramago, editado em 1980, narra quatro gerações da vida de uma família de trabalhadores rurais do Alentejo, os Mau Tempo, e termina num momento logo a seguir ao 25 de abril de 1974 com todos os trabalhadores, os vivos e os mortos a chegarem ao dia Levantado e Principal, numa alusão a uma espécie de ressurreição dos Mortos laica, resgatando assim a memória dos que a História das instituições sempre esquece. Consiste esta chegada à ocupação das terras agrícolas, no início do processo chamado de reforma agrária. Ocuparam-se terras (dito neste modo pretérito já não está no livro), que depois foram nacionalizadas, formaram-se cooperativas, houve um período, curto mas talvez inédito na história, em que os trabalhadores rurais tiveram garantias no trabalho. Mas nunca os modos de produção foram contestados. Continuou-se a produzir o trigo como se o Alentejo ainda fosse o celeiro de Portugal, preconizado por Salazar. Não houve nenhuma reflexão sobre o como nem o que se devia cultivar nas terras ao sul do Tejo, tirando talvez algumas honrosas excepções. Ao cabo de poucos anos  acabaram os governos da nação aos poucos por devolver as terras aos antigos latifundiários e ainda hoje está o estado português a pagar pesadas indemnizações a mando do tribunal europeu a essas famílias regressadas. E a sensação com que se fica,

Entre o fim do romance e o fim da leitura do romance, hoje

É que os trabalhadores rurais, naquele dia dito Levantado e Principal, estavam a entrar numa armadilha, quase que podemos imaginar os trabalhadores a entrar, cantando, pelas terras adentro, passando todos por baixo de um portão que dissesse a Agricultura Liberta. Era a Agricultura que Libertava? Era o Trabalho? É a Cultura? Será o secretariado da Cultura, antigamente secretariado da Propaganda? Será esse portão o da entrada do Parque do Povo, onde os antigos trabalhadores que mal eram pagos para produzir o pão, são agora os seus filhos e netos mal pagos para fazerem de seus filhos e netos como se o tempo não tivesse sido interrompido a meio da história, meio da história esse que consistiu, precisamente, no momento em que termina o Levantado do Chão? Onde é a bilheteira?


        
LEVANT-10-nov-2014_038COMO ASSIM O CANTO DOS PÁSSAROS | Susana Cecílio 
Quando comprei a minha casa (na verdade a frase deveria ser: quando fui comprando lentamente a casa), escolhi-a porque na parte de baixo do prédio havia uma mercearia e na rua estava uma oliveira centenária. Em pouco mais de 10 anos, a mercearia a pouco e pouco foi definhando até se tornar um café-restaurante-tasca-pseudo-com-wi-fi-e-fado-à-sexta-feira. A oliveira foi cortada pois que… incomodava os transeuntes (e os turistas, menina!) porque um dos seus troncos estava muito baixo, mas a oliveira – da resistência e resiliência –, na primavera seguinte rebentou cheia de vida.

Nestes mais de dez anos a cidade, Lisboa, transformou-se. A mercearia de bairro, com legumes, ovos e queijo da terra nunca mais voltará. O que é o produto directamente do produtor elevou-se para a categoria de groumet, passando a ser um privilégio para quem pode pagar o saudável e de origem certificada (segundo as normas EU e todas as siglas que não sabemos decifrar).

Depois há os donos das mercearias, o que é feito deles? Alguns vendem souvenirs, outros ocupam o tempo no bar da esquina mais próxima, outros viajaram para bem mais longe. Os outrora empreendedores já não servem nesta nova imagem do que é a Lisboa menina e moça europeia.

Servir a nova imagem que alguém produziu para servir quem a criou é a nova forma de servidão contemporânea. Ao servo pede-se obediência e gratidão. É no estado em que estamos. É assim. Fazemos corresponder o nossos sonhos à imagem que serve ao sistema, pois assim, talvez, com sorte, sejam concretizáveis.

Pegar em “Levantado do chão” é perceber que somos todos e todas, e principalmente todas, Mau-tempo, é saber que insistimos, tal como a oliveira, em levantarmo-nos de manhã e ir para a praça dos homens, hoje praça do homens e das mulheres e sentirmo-nos satisfeitxs porque “ganhaste apoio, não te queixes”. E tristemente sentirmos orgulho da “miséria que nos dão”. E sabemos que aceitamos trabalhar por este jornal porque, felizmente, hoje fomos escolhidos na praça da jorna.

Em “Levantado do chão” percebemos quem são os explorados e os exploradores, quem tem o poder e como o exerce. Hoje os sistemas de produção/exploração são os mesmos, mas agora já não sabemos quem tem o poder, não sabemos quem, de facto, exerce o poder. Quem é hoje o feitor vigilante?

Criar o espectáculo COMO ASSIM LEVANTADO DO CHÃO é uma tentativa de compreender o nosso mundo no período logo após o final do romance de Saramago e até hoje.

Tal como Saramago gostava de dizer “a literatura não serve para nada”, também o teatro não serve para nada. Porém há qualquer coisa de mágico quando se faz ou vê teatro, há um entendimento que tem origem da partilha do tempo e do espaço que é único e remonta o tempo da assembleia comunitária. A discussão do que é comum e é isso que encontro no teatro; o momento de, enquanto membros de uma comunidade, podermos reflectir sobre onde e como estamos e para onde queremos ir. Reflectir isso num espectáculo é tentar contribuir para a discussão de quem somos, sabendo de onde viemos, e usar da metáfora para percebermos os nossos abismos.


1660528_669086133210871_1772304636355966310_nCOMO ASSIM UM DESERTO | Carlos Marques “Como Assim Levantados do Chão” é uma tentativa de compreender “Levantado do Chão” de José Saramago e também de entender a nossa própria história. O romance de Saramago narra através da história de 4 gerações da família Mau Tempo as terríveis condições de trabalho no campo e suas diversas mudanças ao longo do tempo, a luta política antifascista e também as privações em nome de um futuro mais… esperançoso – pensavam eles, acreditaram todos. E assim parecia que a luta tinha acabado ali e que a democracia resolveria todas as injustiças. Mas a verdade é que ninguém sabia muito bem para onde ir…

Este é um espectáculo que rumina entre as minhas memórias – embora não sejam as memórias das praças das jornas, a memória amarela da fome alentejana ou das reuniões clandestinas e consequentes perseguições da GNR ou do Alentejo vermelho, ou até mesmo das insubordinações dos trabalhadores -, são memórias de conversas com os mais antigos onde tudo isso era dito e orgulhosamente sublinhado… esse ADN do que é ser alentejano entranhou-se-me de tal forma que este COMO ASSIM LEVANTADOS DO CHÃO gira em torno da homenagem e da descoberta desta terra, deste chão, tanta terra abandonada… devia ser cultivada.

Começamos o espectáculo narrando o fim do livro e damos-lhe uma continuação – como se fosse possível –, poderíamos não falar da exploração do homem pelo homem (haverá coisa pior?) ou dos latifundiários de hoje que não apresentam rosto, ou da falta de esperança neste sistema político que demagogicamente não permite outros; porém é-nos impossível fugir a isso. Gostaria “muito sinceramente” (palavra de político) de falar de outras inquietações, mas estamos num tempo em que não acreditamos em nada e sabemos que por trás de cada noticia existem sempre estratégias e objectivos económicos.

O teatro ainda é um local de inquietações e de reflexões em conjunto e por isso continuamos a pensar sobre o mundo, porque acreditamos que enquanto existirem pessoas a pagar bilhete para nos ver – pessoas que, como nós, resistem nestes tempos confusos – havemos de continuar. A nós compete-nos a responsabilidade de dizer que estamos aqui para cantar e para o rest10007463_669086423210842_4629897212321038790_no, como diz José Mário Branco no seu FMI. Passou-se um ano desde a minha última criação teatral e ao reler a folha de sala desse espectáculo chamado Constantin Gavrilovitch acaba de se matar, texto de Rui Pina Coelho (amigo de longa data), verifico que esse texto é muito semelhante ao que agora pensei escrever: “(…) Já ninguém aguenta ouvir dizer que as coisas estão mal. Toda a gente sabe. Já não aguentamos ver sempre as mesmas caras, as mesmas medidas, a mesma austeridade. Já faltam palavras para relatar o nosso fracasso político. Constatamos subtrações de direitos a muitas profissões com estatuto, e isso tornou-se normal. Mas assusta-nos. Assusta-nos, em especial, porque somos artistas, porque nem estatuto temos perante o estado. Assusta-nos porque, como toda gente, temos contas para pagar… e não temos qualquer protecção social. Se os que têm direitos os estão a perder, o que restará para nós, que nunca os tivemos? Mas não são apenas os direitos: são as próprias condições em que trabalhamos – um deserto cultural avizinha-se; as estruturas teatrais começam a desaparecer; os projectos a rarear e com eles as pessoas que estão por detrás dos mesmos… Mas continuamos aqui… um pouco à deriva, e como diria o velho na história tradicional: E agora, que mais nos resta? Peguemos no burro às costas, façamos ainda mais esta. Acredito que o teatro é fundamental para uma verdadeira democracia. É o local em que podemos falar com os nossos contemporâneos in loco. Uma assembleia, que convoca o espectador para uma reflexão sobre a forma como se vive nestes tempos difíceis (…)” (Maio de 2013). Hoje, dia 13 de Novembro de 2014, nada mudou, pelo contrário.


SOBRE A MÚSICA | TERESA GENTIL Poderá a música transmitir-nos a emoção, o contexto, o lugar ou o tempo do não dito e do não visto?Poderá transmitir-nos parte de algo inenarrável? A música deste “como assim”? , sem  querer ou porque assim tinha de ser, desenhou-se numa linha ténue, entre o não vivido e o testemunhado através do  objeto “livro”; entre as palavras do Miguel e os gestos da Susana e do Carlos; entre a expectativa do futuro e as raízes  do passado. E mesmo tentando resistir a esta “memória”, o dia seguinte não é outro senão o anterior, e a arte a testemunha do não vivido.

Carreira 

Estreia 13 Novembro, Centro Cultural da Malaposta, Lisboa de 13 a 23  de Novembro 2014

Cine-teatro Curvo Semedo, Montemor-o-Novo de 27 a 29 Novembro 2014

Espaço Os Infantes, Beja 11 Dezembro 2014

Cine-teatro Municipal de Serpa  12 Dezembro 2014

Teatro Garcia de Resende, Évora  9 e 10 Janeiro 2015

Além das 15 apresentações esta primeira fase do projecto promoveu no final de cada espectáculo conversas informais sobre as temáticas abordadas no espectáculo; existiu ainda uma formação que apelidámos de COMO ASSIM UMA FORMAÇÃO sobre a linha performativa do espectáculo e ainda uma conversa “COMO ASSIM UMA CONVERSA” reflexiva sobre a obra e as temáticas abordadas no “Levantado do Chão” com Fernanda Cunha, Elisa Lopes da Silva e Ricardo Noronha.

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